Ceci n'est pas un blog

23.9.03

I Encontro Nacional de Weblogs
Braga, 18-19 Setembro 2003
Weblogs, jornalismo e comunicação
Pedro Fonseca (ContraFactos & Argumentos)

Blogues e jornalismo: do produtor ao consumidor

Para começar, digo desde já que não existem blogues jornalísticos em Portugal. Falar de jornalismo nos blogues é apenas - e com algum esforço - tentar encontrar alguns textos que configuram a prática jornalística.

Em Portugal, os blogues ainda não são uma alternativa aos meios de comunicação social. A maior parte deles "alimenta-se" da comunicação social para aprofundar os temas abordados, raramente validando a sua veracidade e apostando quase sempre na forma opinativa.

Assim, os blogues apenas são um dos lados do jornalismo - aquele que ocupa certos profissionais do jornalismo, directores de jornais, políticos e outros -, o lado da opinião. Mas falta a informação, confirmada. Essa continua a ser fornecida nas suas formas tradicionais.

Não se nega que possam surgir blogues jornalísticos mas eles ainda não fazem parte da blogosfera nacional.

Antes, para clarificar conceitos, três explicações:

1. Definição de jornalismo: "uma prática social mediadora entre os eventos que ocorrem no nosso dia-a-dia, no mundo, e o público, que tem deles uma leitura, um entendimento, a partir dos factos divulgados pela imprensa".
Alexandre Freire, doutorado em jornalismo e filosofia política na University of Wales College of Cardiff, in "Jornalismo público, 'publijornalismo' e cidadania"

1.a Definição de imprensa: são "todas as reproduções impressas de textos ou imagens disponíveis ao público, quaisquer que sejam os processos de impressão e reprodução e o modo de distribuição utilizado".
Lei de Imprensa, Lei n.º 2/99, Artigo 9.º

1.b Definição de jornalista: "aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação informativa pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por outra forma de difusão electrónica".
Estatuto do Jornalista, Lei n.º 1/99, de 13 de Janeiro

Pouco nas duas primeiras definições impede um blogue de ser jornalismo ou imprensa mas quantos dos seus autores estão dispostos a tê-lo como ocupação principal, permanente e - não esquecer - remunerada?

Nesse sentido, proponho uma bateria de perguntas e dúvidas à famosa questão da tão falada "ameaça" do jornalismo aos blogues (a aparente esquizofrenia das perguntas corresponde a diferentes abordagens):

1) Existe algum "blogger" com disponibilidade, meios de produção e vertente comercial, capaz de seguir códigos, deontológicos e legais, e estar prevenido com um bom advogado, que queira lançar um blogue jornalístico?

2) Quando os meios de produção dos blogues não pertencem aos seus autores e a maioria nem sequer paga as ferramentas disponíveis, optando por ter publicidade cujo pagamento não reverte a favor da qualidade (ou falta dela) dos seus textos, está alguém disposto a apenas controlar a sua produção intelectual?

3) O que significam em termos sociais e culturais 2000 blogues, mesmo com uma leitura cinco vezes maior, perante jornais como o Público ou o DN, lidos por mais de 100 mil pessoas?

4) Os blogues não são o banho de água fria que os media necessitavam, adormecidos durante anos em posições arrogantes perante a crescente fraca qualidade no serviço prestado?

5) Os blogues são a personalidade forte que falta em muitos jornalistas e que derivou numa maior preponderância mediática dos colunistas?

6) Aceitam-se blogues mal escritos e pouco editados, defendendo que revelam mais sobre a personalidade do "blogger", enquanto em tantos anos de jornalismo ninguém apelou a esta expressão da personalidade dos jornalistas e, pelo contrário, se apontam as gralhas nos jornais?

7) Num blogue, os comentários são as modernas "cartas ao director". Mas, diferente destas, apenas se podem filtrar "a posteriori", pelo que qualquer difamação pode ali ser escrita, de forma anónima. O responsável do blogue aceita ser responsável pelo escrito? A justiça tenderá a dizer que sim...

8) Devem os blogues profissionais estar abrangidos pelo direito de resposta, ficando obrigados a disponibilizar com o mesmo destaque qualquer desmentido de um visado?

9) A recorrente utilização de estagiários nas redacções não contribui para aumentar o número de "bloggers" descontentes com os media?

10) Os blogues não estão a fazer o papel de "fact-checking", de validação posterior das fontes, usual nos jornais nos Estados Unidos mas inexistente em Portugal?

11) Quem era capaz de editar em livro as suas prosas bloguísticas? Que me lembre, apenas o Abrupto avançou com essa ideia...

12) Quem duvida que estamos numa nova era, em que o consumidor de notícias pode também ser produtor?

13) Quem se dispõe a olhar para isto com um novo olhar sociológico, cultural? Não serão nem os jornalistas nem os "bloggers", imersos interiormente nesta tendência e sem capacidade de análise externa...

14) Os jornalistas estão abrangidos por vários códigos, um dos quais, o deontológico, que visa garantir a transparência com os leitores e com os visados nas notícias. O ponto 1 desse código diz que "o jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público".
Quantos dos blogues actuais seguem esta primeira de 10 regras básicas para o jornalismo?

15) E devem os blogues seguir as regras jornalísticas? Possivelmente não mas têm de as cumprir se querem equiparar-se à actividade jornalística...

16) Pode-se defender o direito de autor e ao mesmo tempo disponibilizar imagens ou sons num blogue sem a indicação do autor ou sequer da obra de onde foram copiados esses conteúdos?

17) Pode-se defender o fim do anonimato e citar fontes anónimas?

18) Há alternativas para blogues profissionais que apenas se podem pagar tendo publicidade ou pelo pagamento dos seus leitores? No primeiro caso, o "blogger" tem de arranjar quem lhe trate dessa vertente comercial porque ela é incompatível com a actividade de jornalista. No pagamento directo dos leitores, obriga-o a adoptar uma ferramenta tecnológica para gerir os pagamentos de que poucos jornais portugueses dispõem (ex.: Expresso).

19) Como pode um "blogger" profissional defender as suas audiências para obter mais vantagens comerciais quando não existem ferramentas fiáveis para registar o número de leitores? E saberá ele que quantos mais leitores tiver, mais terá de pagar ao fornecedor de acesso à Internet para ter disponível mais largura de banda?

20) Assumindo que as hiperligações nos blogues são as citações nos jornais, pelo que não é necessário avisar os autores do texto que é referenciado, o que pode suceder ao autor do blogue quando a fonte original difama ou comete outro tipo de crime punido judicialmente?

21) Que tribunal deve julgar o caso de um "blogger" nacional que ofende um cidadão francês ou inglês num texto albergado num servidor norte-americano, como o Blogger?

22) Porque são principalmente os jornalistas ou os relacionados com a comunicação jornalística que mais vezes levantam questões sobre a prática dessa profissão dentro e fora da blogosfera?

23) Porque é que O Meu Pipi ou o Muito Mentiroso são mais acedidos [e têm mais comentários] do que outros blogues mais "sérios"?

24) No futuro, os "moblogs" vão ser uma ameaça à privacidade mas antes não o serão também os "audioblogs", com gravações [sonoras] efectuadas pelos telemóveis?

25) Uma ressalva sobre o jornalismo nos blogues nacionais: casos como o Socio[B]logue não são jornalismo científico? [E, como lembrou a audiência, a formiga de langton ou o Médico Explica Medicina a Intelectuais?]

26) A quem pertencem os arquivos num blogue, ao autor ou ao serviço que os alberga? [E, como foi debatido, os comentários?]

27) Há alguma razão substantiva para as críticas ao jornalismo nos blogues serem dirigidas primeiro à televisão, de seguida à imprensa escrita e depois à rádio, notando-se que é precisamente a hierarquia dos medias com mais audiência?

28) Pode-se comparar a actividade de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos e notícias com a emissão pública de opiniões, como se faz diariamente nos blogues?

29) Os "bloggers" são jornalistas ou, pelo contrário, melhores e mais bem preparados críticos do jornalismo?

30) A "inteligência colectiva", proposta pelos blogues que tantas vezes se citam em circuito fechado, existe mesmo ou não passa de uma falácia?

31) Tal como muito do jornalismo actual é lixo, a blogosfera não acompanha essa percentagem?

32) Os blogues têm mais a ver com o jornalismo ou com um livro de apontamentos de casos reais diários e pessoais que pouco tem a ver com jornalismo?

33) Porque é que muitos blogues bem sucedidos no estrangeiro, principalmente nos Estados Unidos, são mantidos por jornalistas?

34) Após os veementes discursos nos blogues nos acontecimentos pós-11 de Setembro de 2001, muitos deles descontentes com o que liam e viam nos media tradicionais, os blogues são uma nova revolução nos media ou antes o desespero de uma sociedade para ser ouvida junto dos poderes, do chamado "quarto poder" ou de outros?

Quanto a mim, em resumo:
- o facto de os blogues serem uma forma de vigilância saudável ao jornalismo não os transforma em si mesmos em jornais;
- tal como os "bloggers", também os jornalistas são humanos e erram (alguns erram vezes demais, é verdade...). Os jornais têm mecanismos de recuperação da qualidade, como as cartas ao director ou o direito de resposta, que muitos blogues não dispõem;
- tal como sucede nos jornais, uma quantidade de blogues não é sinónimo de qualidade;
- blogues e jornalismo não colidem entre si, antes se re-alimentam;
- a evolução para blogues verdadeiramente jornalísticos só pode ser saudada com vigor mas ainda se está longe;
- os blogues não provocam um excesso de informação porque alinham no excesso da opinião. Isso não é jornalismo.
- concordo e constato como blogger e como jornalista, usando palavras de Dan Gillmor - que "os meus leitores sabem mais do que eu. Isso não é uma ameaça, é uma oportunidade".

Não tenho dúvidas de que está longe, em Portugal, a visão de Rebecca Blood de que "juntos, os 'bloggers' são um perigo para empresas, governos e militares porque podem agrupar-se segundo os seus próprios critérios". Nesse sentido, eles são ainda menos uma ameaça aos jornais do que um complemento saudável e democrático de expressar opiniões. Quem sabe, num futuro breve, queiram investigar e relatar o que muitos jornais, televisões ou rádios não fazem, não podem ou não querem fazer.

A comunicação sempre funcionou com utopias e concretizou-as: Gutenberg iniciou a imprensa com a edição da Bíblia; o cinema teve o visionário Méliès e as suas ficções científicas, a rádio apadrinhou uma "Guerra dos Mundos" de Orson Welles; a televisão mostrou o homem na Lua.

Neste campo, os blogues não demonstraram nada até hoje. Assumirem-se como concorrência da comunicação social é um sonho, não uma utopia.

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