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1.12.04

Trabalho analisa interactividade entre leitores e jornalistas
No Reino do Anonimato
Pedro Fonseca
Segunda-feira, 19 de Maio de 2003


José Pedro Castanheira é jornalista do "Expresso" e analisou os comentários "on-line" dos leitores às notícias publicadas pelo semanário sobre a Fundação Jorge Álvares (FJA), o assunto que mais comentários mereceu dos leitores no ano de 2000. Os dados mais salientes focam o "reino do anonimato" e da desresponsabilização em que os leitores se refugiam, geradores de uma tendência dos jornalistas para os ignorarem, eliminando à partida qualquer interactividade entre as partes.
O trabalho - intitulado "Jornalismo online: problemas técnicos e deontológicos (Estudo de um caso: os comentários dos leitores às notícias sobre a Fundação Jorge Álvares no Expresso Online, em 2000)" e apresentado em Dezembro como dissertação de fim do curso de pós-graduação em Jornalismo do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa e da Escola Superior de Comunicação Social - deverá ser editado em livro neste ano.

COMPUTADORES - Como se interessou por analisar a questão do jornalismo "on-line", partindo do exemplo concreto dos comentários "on-line" à criação da FJA?
É a convergência de dois factores: o interesse por Macau - é em 2000 que há todo o desenvolvimento do caso da FJA, fundação criada em Dezembro de 1999, na véspera da transição, mas de que se só se tem conhecimento em Janeiro de 2000. Acompanhei essa história como jornalista e por todo o impacto que teve na versão "on-line" do "Expresso". Por outro lado, em 2000, decidi frequentar um curso de pós-graduação em jornalismo, de cuja avaliação final constava obrigatoriamente a apresentação de um trabalho, uma dissertação.
Tive que apresentar aos responsáveis pelo curso uma proposta de tema a ser estudado, analisado, aprofundado, e esse foi um dos temas que escolhi. Achei que era sobre uma área muito mal ou quase nada estudada, o jornalismo "on-line" - até porque o jornalismo "on-line" é muito recente, nomeadamente em Portugal. Não conheço nenhum estudo de caso sobre o "on-line" - noutros países, conheço, evidentemente - mas, ao que sei e me disseram, estava a ser relativamente inédito.

Refere a tendência para diminuir as distâncias pela Net. Isso funciona em termos de jornalismo "on-line"?
Essa é uma das dimensões do trabalho que achei interessante, o comprovar que o "on-line" desfaz ou ultrapassa as fronteiras físicas e geográficas espaciais. Sabíamos isso em tese mas, na prática, verifiquei que é assim mesmo. É pena que, como a esmagadora maioria das mensagens são anónimas, sem qualquer referência ao local de onde foram emitidas, fosse completamente impossível fazer esse estudo mas percebe-se pelo tipo de assinatura das mensagens (apesar de serem anónimas) que uma fatia muito razoável - pelo menos um terço, seguramente - vieram de Macau, o que é natural: o assunto dizia-lhes respeito e foi onde a questão teve mais impacto.
Por outro lado, encontrei cerca de duas dezenas de mensagens provenientes de outros países que aparentemente não têm a ver com o assunto, só na medida em que são países que foram acolhendo a diáspora macaense: o Canadá, evidentemente, o Brasil, Reino Unido, Hong Kong. É interessante, em todo caso, que haja pelo menos dois países onde existem importantes comunidades macaenses mas que não participaram nesta espécie de fórum: os EUA e a Austrália, países onde a Net está muito disseminada e politizada.

As opções interactivas serão diminutas no "Expresso", critica a falta de fóruns, como os temáticos, sondagens, "live chats", elementos multimédia, existentes noutros jornais. Os jornais precisam disto?
Os jornais só têm a beneficiar se apostarem a sério em explorar as inúmeras potencialidades da Net, cujos imensos recursos podem ser extremamente úteis - na ligação dos jornalistas aos seus leitores e no seu conhecimento, na participação dos leitores no jornal. Fui descobrindo essas enormes potencialidades à medida que ia fazendo esta investigação, lendo e entrando em contacto, tomando conhecimento de outras experiências e de outros órgãos de comunicação.
A tomada de consciência editorial por parte dos responsáveis do "Expresso" de que estávamos a cair no reino do anonimato e da desresponsabilização levou o jornal e outros órgãos de informação a alterar a situação e a pôr algumas limitações a essa participação. Por um lado, todos os leitores têm de se registar previamente, o que permite um certo controlo. O segundo é a introdução de filtros, impedindo a utilização de certas palavras ou expressões - claro que há formas de fugir aos filtros mas, apesar de tudo, há essa preocupação no "Expresso". O terceiro é, se calhar, o mais eficaz: o acesso pago. O "Expresso" é pioneiro em Portugal, pelo menos nos jornais, e desde Janeiro que o acesso ao "on-line" é pago e só lê quem paga.

Agora os jornalistas lêem mais os comentários? Lê mais, no seu caso?
Não, fiquei vacinado. Os 730 comentários, tive de lê-los todos, são milhares, alguns são quatro, cinco páginas, aquilo tudo somado...

Porquê advogar mais opções interactivas para os jornais se os próprios jornalistas os recusam, não contribuindo para a aproximação com o leitor?
Nesta forma totalmente aberta e sem limites, a conclusão a que cheguei é que não aproxima coisa nenhuma. Se calhar, antes pelo contrário: o jornalista passa a reagir também ele de forma epidérmica e rejeita automaticamente aquele tipo de mensagens. É verdade que há muitas outras experiências, sobretudo nos EUA, que mostram que, noutras condições, responsabilizando mais o leitor, exigindo-lhe a identificação, a participação funciona, é real, é efectiva.
Os investigadores e os jornalistas que têm sido abordados nessas investigações reconhecem que isso se tem reflectido positivamente no seu trabalho, é uma realidade. Alguns dizem que a participação dos leitores lhes dá muitas sugestões para as suas colunas de opinião, sobre assuntos a abordar, sobre as formas de o fazer e mesmo informações. Uma das minhas abordagens foi o tipo de pistas temáticas, fornecidas pelos leitores, relacionadas com Macau, que os leitores deram e escreveram.

Nesse caso, o anonimato faz sentido?
É bem-vindo, inevitável, lógico, natural. Não podemos impedir que o leitor se refugie no anonimato no caso da denúncia, em situações de protesto. Se ele não existisse, não haveria denúncias, não haveria protestos.

Porquê criticar o anonimato dos leitores quando os jornalistas usam e abusam das fontes anónimas?
Também abordo o tipo de críticas que os leitores fazem aos jornalistas. Para além daquelas a roçar o insulto, a ofensa e a difamação, há outro tipo de críticas muito interessantes e incidem basicamente sobre três assuntos: um é sobre a independência económica dos jornais - neste caso, do "Expresso" perante uma realidade, um facto, que é Macau e onde durante anos e anos correu e continua a correr muito dinheiro.
A segunda questão é a dos títulos: há alguns leitores a criticarem com fundamento, com razoabilidade, a titulação de algumas peças por não condizerem com o texto, com o conteúdo, por serem mais opinativos, não se limitarem a ser informativos, etc.
A terceira crítica, também muito interessante, é o recurso às fontes anónimas. É uma crítica feita com justeza a muitos jornais portugueses e não só: a utilização abusiva, para não dizer sistemática, das fontes anónimas. Os leitores não são estúpidos, percebem isso e detectaram com enorme frequência, no caso da FJA, o recurso a essas fontes, denunciaram isso e criticaram. Fiz uma análise de todos os artigos em que há leitores a insurgirem-se contras as fontes anónimas e, de uma maneira geral, o leitor tem razão.

Ao não lerem os comentários dos leitores, não estarão os jornalistas a fugir ao confronto com eles?
Acho que corremos esse risco mas é inevitável se se mantiver aquilo que refiro como reino do anonimato. Pessoalmente, como alguns dos meus colegas, comecei por achar algum interesse, alguma piada, alguma curiosidade perante os primeiros comentários; mas, depois, perante tantos sempre anónimos, temos outras coisas para fazer, não vale a pena darmos valor a leitores que se refugiam sistematicamente no anonimato, ainda por cima para fazerem críticas muitas vezes ofensivas e obscenas.

Mas não há, nos jornais, falta de espaço para a opinião dos leitores?
O fenómeno da Net deve levar-nos a tentar perceber porque é que nos média tradicionais não há tanta participação dos leitores. A Net demonstra que há uma enorme apetência, vontade, disponibilidade dos leitores para terem voz, darem sugestões, criticarem, opinarem - e porque é que isso não se traduz nos meios mais tradicionais? Nós, que trabalhamos nesses média, se calhar, temos algumas responsabilidades; se calhar, temos estado relativamente surdos a esse grande desejo de participação e isso deveria fazer-nos pensar. Basta ver o sucesso que têm os fóruns radiofónicos: as pessoas ficam à espera para participarem. Na imprensa escrita, isso não se sente tanto mas não é certamente por os leitores não quererem participar. É claro que os meios são diferentes, o espaço é menor, os próprios passos para a pessoa participar num jornal: tem que escrever, meter a carta no envelope, ir aos correios, pagar o selo ou ir ao jornal...

...ou enviar por E-mail...
Acho que, neste momento, a origem da maior parte da correspondência dos leitores não é tanto por carta de papel mas por E-mail, o que revela uma grande vontade dos leitores de participarem que, porventura, os jornais não abriram as suas portas, não acolheram.


Leitores Anónimos e Jornalistas Desinteressados
P.F.
Qual a metodologia usada neste trabalho? Os autores dos comentários no Expresso Online presumiam estar a fazê-lo para um fim: pediu-lhes para usar os dados ou assumiu que eram públicos?
A Net é um meio de comunicação social como outro qualquer, como a televisão, os jornais, e, portanto, faz parte do espaço público. A Net é uma esfera pública, talvez a mais pública de todas, aquela em que, de facto, a interactividade realmente pode funcionar. É uma das grandes virtudes da Net.
Contactei todos os autores de mensagens identificadas, entendendo como identificação um nome verosímil - o Zé dos Anzóis não era para mim verosímil, era obviamente um pseudónimo e havia muitos pseudónimos desse género -, acompanhado de um endereço electrónico. Contactei as 46 pessoas com identificação completa, das quais algumas autoras de várias mensagens, pelo que esse número desce para 37, num universo de 730 mensagens emitidas. Depois, fiz uma descoberta fantástica: apenas oito responderam, assumiram a autoria da mensagem e a autenticidade da sua assinatura electrónica.

Como explica isso?
Acho que só os sociólogos e os homens da psicologia social poderão responder. A verdade é que as pessoas preferem não dar o nome, não dar a cara - há quem diga que a cultura da Net é mais que anárquica, há uma cultura de desresponsabilização, sobretudo quando são leitores que comentam artigos assinados por jornalistas e criticam os jornalistas e, às vezes, até os insultam e aos seus familiares. Seria de esperar que assumissem as críticas: parte das quais são lógicas, concretas, pontuais, bem-vindas (estou a falar como jornalista). Uma das consequências disso é que os jornalistas - e esse é um outro trabalho estatístico que fiz, com todos os 12 jornalistas que escreveram sobre esta temática, entre jornalistas e colaboradores -, e uma pergunta que fiz a todos eles foi para saber até que ponto havia uma verdadeira interactividade na Net, isto é, se liam os comentários dos seus leitores...

... e descobriu que não.
O que é espantoso: dos 12 jornalistas, apenas cinco leram os comentários aos seus artigos e nenhum respondeu. Porque são críticas anónimas e porque, em geral, são ou superficiais ou claramente na área da difamação, do insulto ou da ofensa. Os jornalistas, perante comentários anónimos e ofensivos, preferem não os levar em conta e muito menos responder.

Pelo contrário, os jornalistas olham mais para o correio normal. Porquê?
Porque dão mais valor e importância à correspondência tradicional, às críticas tradicionais feitas por carta, por escrito...

... que também podem ser anónimas!
A maior parte não são. Evidentemente que as há, mas, na maior parte, são assumidas, são assinadas, com nome e local de residência; e, por outro lado, são críticas muito mais cordatas, não são ofensivas, são muito mais construtivas. É um outro tipo de leitor.

Alguns dos leitores assinaram com nomes públicos conhecidos, como PGR (Procurador-Geral da República). Mesmo nesses casos, não merecem uma resposta?
Provavelmente, porque o jornalista já optou quase por não dar demasiada importância aos comentários dos leitores.

Então para quê tê-los?
Essa é uma boa pergunta.

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